terça-feira, 24 de março de 2015

A Ilha do Tesouro na Terra do Fogo (Parte 1)

Na época das grandes navegações eram comuns histórias de grandes tesouros, com barcos cheios de piratas, comandantes valentes, e jovens grumetes. Como não lembrar de personagens clássicos como o jovem marinheiro Jim Hawkings, o capitão Dr. Livesey ou o pirata “Long” John Silver, à bordo do navio Hispaniola? E quem sabe o autor Robert Louis Stevenson não tenha se inspirado um pouco mais na vida real do que poderíamos esperar, ao escrever “A Ilha do Tesouro”, que viria a ser publicado em 1883. Talvez o autor escocês possa ter ouvido falar de histórias que aconteceram não no Caribe, mas na América do Sul.

Seis décadas antes o barco era outro, o HMS Beagle, que vinha fazer uma missão cartográfica. Os ingleses estavam sedentos por poder, o que não é nenhuma novidade, mas nesta época estavam mais do que nunca! Eles aproveitaram a recente independência dos países do Cone Sul para se infiltrar comercialmente (comprando quase tudo o que era produzido), e para conjurar guerras, já que além de terem as oligarquias em suas mãos, praticamente não existiam exércitos sul-americanos sem mercenários ingleses, irlandeses ou europeus. A Guerra da Cisplatina acabava e de terminar, e o Rei Guilherme IV já estava de olhos nas Ilhas Malvinas, no Rio da Prata e até no Hawaii! Justificando assim a Estação Sul-Americana da Marinha Real, em Valparaíso no Chile.

O velho veterano da Batalha de Trafalgar, capitão Pringle Stokes, havia zarpado de Plymouth do dia 22 de Maio de 1826, e no decorrer da viagem entrou em uma tremenda calmaria na Terra do Fogo.  Este clima inóspito fez com que ele caísse em depressão, e quando chegou ao Porto da Fome, no Estreito de Magalhães, trancou-se em seu quarto por 14 dias e depois suicidou-se com um tiro na cabeça. Dali a nau voltou para reparos no Rio de Janeiro, e para receber novas ordens do almirante Robert Otway da Estação Sul-Americana. Numa decisão controversa, ao invés de passar o navio para o próximo em linha de comando, o primeiro-tenente William Skyring, o almirante optou pelo jovem ajudante-de-ordens Robert FitzRoy, então com 23 anos, como novo capitão do Beagle.

Ao dar continuidade à missão histórica, o brigue retorna por aquela mesma região, e perto da Ilha Desolação alguns marinheiros pegam o bote salva-vidas do navio ancorado e passam a noite numa ilhota perto dali.  Ao acordar descobrem que alguns indígenas haviam roubado o bote. Isso deixa FitzRoy enfurecido e faz com que ele passe dois meses obsessivamente procurando pelo bote, até que eventualmente de seus sucessivos fracassos viria uma idéia mirabolante: 
"Convenci-me de que, enquanto formos ignorantes da língua fueguina, e os nativos forem igualmente ignorantes da nossa, não iremos nunca saber muito sobre eles, ou o interior do seu país; nem haverá a menor possibilidade de virem a ser elevados um degrau acima da baixa estima que nós temos por eles". (Diário de bordo de FitzRoy)
Então como retribuição pelo roubo do bote baleeiro ele levou 4 nativos para Londres. Foram batizados de Jemmy Button (O'run-Del'ico), Fuegia Basket (Yok’cushly), York Minster (El’leparu) e Boat Memory (cujo nome original se perdeu na história). Pode-se perceber pela ironia na escolha dos nomes, que desde do início a atitude geral era de zombaria aos aborigenes. Muitos falam sobre as "boas intenções" de Robert, mas não é isso que vemos a seguir.  De Wulaia, no extremo sul do Chile, onde o oceano Pacífico encontra o Atlântico, o Beagle levava consigo Jemmy Yagán, e outros 3 indígenas da etnia kawésqar para aprenderem inglês, converterem-se ao Cristianismo, e servirem de intérpretes e missionários para o Rei. 


A Tierra del Fuego foi dada esse nome porque os índios daquela
região tinham o hábito de sempre levar o fogo dentro de suas canoas.

Além de tradutores e párocos, os ingleses utilizavam diplomatas em sua infiltração e conquista de territórios. Uma dessas maneiras era através do "estado tampão". Um exemplo desse tipo de estado é o Uruguai, que declarou independência do Império do Brasil com o forte apoio das Províncias Unidas do Rio da Prata.  A tática era de "dividir e conquistar", e reinar sob uma "pax britânica". Durante o conflito na Cisplatina, o Brasil conseguiu reter as metrópoles, enquanto o governo de Buenos Aires tomou conta de todo o interior deste país.  Supostamente os nossos vizinhos levaram a melhor na guerra, mas não tiveram o poderio militar para tomar proveito desta vitória. A Marinha do Brasil havia bloqueado o comércio do Rio da Prata durante todo este tempo, e a Inglaterra estava pressionando pelo fim da guerra. Hoje em dia temos correspondências do diplomata Lord Ponsonby que indicam que todo o processo de independência do Uruguay, desde o Êxodo Oriental até 1827 foi influenciado pela Coroa Britânica:
"É Lavalleja à quem devemos a paz, em grande parte, pelo menos. Eu acho que nós jamais haveríamos alcançado-a por meios corretos sem sua cooperação." (Carta de Ponsonby a Gordon, Buenos Aires, 9 de março de 1828)
Os ingleses temiam que se o Brasil tivesse todo o extenso litoral do Oceano Atlântico, do Amazonas até o Rio da Prata, com poucos navios e alguns portos na África, poderia tomar o comércio da região para si, e mesmo uma marinha como a britânica teria dificuldades para lutar uma guerra naval tão distante de suprimentos e recursos. Durante a Guerra da Cisplatina o Império Brasileiro havia atacado a cidade de Carmen de Patagones, e ficou evidente que o litoral sul da Argentina estava vulnerável a ataques marítimos. Portanto as Ilhas Malvinas eram uma peça-chave na proteção desse território, e assim Luis Vernet, um comerciante Húngaro naturalizado, inicialmente montou uma empresa em Puerto Soledad e convenceu o governo Argentino a desenvolver o comércio e popular a ilha.  Neste primeiro momento ele levou consigo alguns gaúchos e indígenas dos pampas, entre eles estava o mestiço charrúa Antonio Rivero. Desde 1825 a Inglaterra havia reconhecido a independência da Argentina, e não fez nenhuma revindicação pelas ilhas até o ano de 1829, quando Luis Maria Vernet foi nomeado o primeiro governador das "Falkland Islands".  Nesta ocasião o próprio Primeiro Ministro Duke de Wellington declarou: "Eu já percorri todos papéis à respeito das Ilhas Malvinas. Não é claro para mim que já possuímos alguma vez a soberania sobre essas ilhas."

Um ano depois os fueguinos já estavam causando um certo rebuliço em Londres. A sociedade local considerou aquilo como um experimento, já que os índios foram colocados no First Church of England Primary School, em Walthamstow, um colégio anglicano. Lá estavam sendo ensinados modos “civilizados”, ao ponto de que é dito que Jemmy não conseguia passar por um espelho sem ficar admirando suas roupas. Ele foi apelidado de Button (Botão), porque foi trocado com sua família por um botão de madrepérola. Mesmo todos os índios havendo sido vacinados antes de aportar na Europa, Boat Memory, o quarto kawésqar, morreu de varíola ao chegar em Plymouth. Sobre Fuegia Basket, Charles Darwin escreveu: "é uma boa, modesta, e reservada jovem, com uma expressão bastante agradável, mas, por vezes, mal-humorada, é muito rápida em aprender qualquer coisa, especialmente línguas. Isso ela demonstrou em pegar um pouco de espanhol e português, quando foi deixada em terra apenas por um curto período de tempo no Rio de Janeiro e Montevidéu, e no seu conhecimento de inglês." Ele também mostrou admiração por York e Jemmy:
"York Minster era um homem adulto, baixo e forte, seu temperamento era reservado, taciturno, melancólico, e quando animado ficava violentamente empolgado; sua amizade era muito forte em relação a alguns colegas à bordo; e possuía bom intelecto. Jemmy Button era um favorito de todos, mas da mesma forma era empolgado; a expressão do rosto imediatamente mostrava sua boa índole. Ele era alegre e muitas vezes ria, e era incrivelmente gentil com qualquer um sofrendo dores: quando o mar estava revolto, eu muitas vezes passava mal, e ele costumava vir a mim e dizer em voz melancólica, 'Pobre, pobre companheiro!' <...> Ele era um verdadeiro patriota; e gostava de elogiar sua própria tribo e seu país, em que ele realmente disse que havia 'muitas árvores', e difamava todas as outras tribos: ele corajosamente declarou que não havia Diabo na sua terra. Jemmy era baixo, parrudo e gordo, mas vaidoso com sua aparência pessoal; ele costumava sempre usar luvas, seu cabelo estava bem cortado, e ficava chateado se seus sapatos bem lustrados ficassem sujos."
De cima para baixo: Yok’cushly Kawésqar, O'run-Del'ico Yagán
e El’leparu Kawésqar. 

Quando chegou na Inglaterra em Agosto de 1830, o jovem inexperiente Robert FitzRoy não tinha a menor idéia de que haviam passado a nova Lei de Palmerston, uma espécie de Lei Áurea inglesa, um ato de abolição da escravatura.  Devido a essa gafe, foi chamado a uma reunião com o ministro do interior, o Visconde de Melbourne, para dar maiores explicações sobre seus atos. Após ser acusado de escravista, FitzRoy confessou ter capturado os indígenas contra suas vontades, como reféns.  Isto não ajudou nem um pouco a já deteriorada opinião pública, mas mesmo assim a permissão foi concedida para os fueguinos ficarem.  O plano de estudos dos parentes originários era aprender inglês e o básico do Cristianismo, depois estudar jardinagem, agricultura e ferramentas mecânicas leves.  Após dominar um pouco a língua inglesa tiveram uma audiência com o Rei e a Rainha Adelaide, e ganharam uma quantidade significativa de presentes da aristocracia local. Jemmy e Fuegia foram muito bem nos estudos, mas York não evoluiu muito por causa da sua idade avançada, 28 anos, e não se adaptou muito bem numa turma infanto-juvenil. Para piorar a situação, com o tempo York, começou a “namorar” a Fuegia, de 12 anos, o que deixou o capitão Fitzroy desesperado. 

FitzRoy não queria voltar tão cedo para o mar, ele temia as fortes tempestades, a malnutrição, e principalmente de ter o mesmo fim que seu predecessor. Por isso buscou algum companheiro de bordo com quem pudesse conversar e manter a sanidade. Quando Robert McCormick, o naturalista oficial do Beagle, decidiu iniciar a sua jornada que traria ao mundo a Teoria da Evolução, essa era a chance de Jemmy, Fuegia e York sairem de fininho, e Robert sair dos holofotes. Foi assim que Charles Darwin entrou em cena, com apenas 21 anos na época, foi financiado pelo pai para poder ter uma vaga na expedição como “coletor de materiais” (uma espécie de naturalista assistente). Darwin era um graduando de Bacharel de Artes na Christ's College, em Cambridge, no intuito de se especializar em clérigo Anglicano, e ainda acreditava no mito da Criação naquela época. 

Enquanto o navio do Rei zarpava pela segunda vez, o general Fructuoso Rivera havia se tornado o primeiro presidente do Uruguai. Até então não haviam ocorrido conflitos naquela região sem que índios tivessem envolvidos em quaisquer lados das batalhas.  Os índios charrúas já eram conhecidos por serem muito combativos e resilientes, inclusive por terem saqueado Montevideo no momento de sua fundação, e mostrando aos europeus a arma que viria a ser característica da cultura dos pampas, a boleadeira (conhecida como cupiá). A maioria dos povos originários até lutaram lado a lado com as tropas da Banda Oriental, ajudando os objetivos emancipadores. Eram nômades, e diz-se que lutar diretamente contra os charrúas era quase impossível, devido à serem exímios montadores e terem grande capacidade de deslocamento.  Muitas vezes por enxergarem a si próprios como verdadeiros donos da terra, não viam problemas em tomarem dos fazendeiros gado para se alimentar, cavalos, e couro de vaca para se vestirem, e os latifundiários pressionavam muito o governo para domá-los a qualquer preço.  A única maneira de conseguir "amansar" os índios foi através de uma emboscada, conhecida como Massacre de Salsipuedes, em 1831.  Ali o presidente, aproveitando-se da boa relação que estes povos tiveram com os uruguaios durante décadas, convocou todas as lideranças indígenas para uma reunião onde iria ser organizada a defesa do território do país. Por escolha proposital ou não, os soldados que executaram os charrúas, eram parentes Guaranis.  Cerca de 150 a 200 indígenas morreram, os sobreviventes foram aprisionados.  Vaimaca Peru e o pajé Senaqué, Guyunusa e Tacuabé foram levados acorrentados, já o cacique Sepé conseguiu fugir com 25 homens. Todos estes são personagens históricos do Uruguai até hoje. Alguns poucos conseguiram fugir para o sul do Brasil, a maioria caiu na política de redistribuição de escravos charrúas comandada por Rivera. Muitos, até barcos inteiros, foram enviados às Ilhas Malvinas:
"Oficie-se ao Ministério da Guerra para que através das Capitanias dos Portos, se faça entender junto aos capitães dos navios que partem para o exterior, que o governo está disposto a admiti-los um ou mais de dois Charrúas." (Decreto del 10 de Mayo de 1831 de José Ellauri)

A boleadeira dos gaúchos, é uma arma originalmente inventada pelos Charrúas.

 Após 3 buques americanos serem detidos pescando ilegalmente em águas malvinenses, e levados para Buenos Aires para serem julgados, o governo americano exigiu que o presidente Juan Manuel de Rosas se desculpasse formalmente, o que não aconteceu.  A corbeta americana USS Lexington então atacou Porto Soledad em retaliação, destruindo todas as fortificações recentemente construídas por Luis Vernet. No momento do ataque, a colônia de Port Louis ou Puerto Soledad tinha cerca de 124 habitantes, dos quais 30 eram negros, 34 portenhos, 28 rioplatenses e 7 alemães, a que se acrescentou uma guarnição de cerca de 25 homens. As provisões foram saqueadas e muitos habitantes foram levados presos. Os charrúas que ali chegavam não tiveram um destino muito melhor. Seus donos as vezes não se preocupavam nem em vesti-los para aquele clima ameno, então acabavam morrendo de frio. Era comum ver nativos pastando ovelhas por quilômetros e quilômetros, o que os levava à enfermidade, para a indiferença de seus donos que não lhes tinham os mínimos cuidados. Em certa ocasião em que uma senhora desejava devolver sua índia charrúa, por esta não lhe servir para nada, em resposta o Ministro das Relações Exteriores José Ellauri retrucou: "contesto-lhe que, doravante, não assumirei qualquer índio que se queira devolver," acrescentando, "a razão de ser-lhe inútil, não é suficiente para tanto, pois antes de educar-lhes todos mais ou menos o são". 

Quando o Beagle ancorou em Salvador, na Bahia, em Março de 1832, o tema de escravismo também causou polêmica. O jovem Charles Darwin era neto de um famoso anti-escravagista e fundador da Sociedade Lunar, Erasmus Darwin, e parece que FitzRoy ainda não havia conseguido esquecer as acusações pelas quais passou um ano antes.  Charles ficou naturalmente chocado com o tratamento dos escravos no Brasil, e durante o jantar FitzRoy relembrou de um certo fazendeiro que disse a ele que quando perguntou a seus escravos se eles desejavam ser livres, eles o responderam que não. Daí Darwin perguntou a FitzRoy se era possível para os escravos responderem essa pergunta honestamente, já que vinha de seu senhor. Em seguida o capitão teve um ataque de nervos, mandando Darwin sair da mesa e efetivamente expulsou-o da missão; mas logo fizeram as pazes.  Na verdade o capitão tinha um temperamento explosivo, tanto que foi apelidado pela tripulação de "Hot Coffee" (Café Quente).  Chegando no Rio de Janeiro FitzRoy precisou voltar pra Bahia para remapear alguns trechos do mapa em discrepância, enquanto isso Darwin ficou aqui morando 2 meses na Praia de Botafogo com Fuegia Basket e o pintor Augustus Earle

Na segunda missão do navio, o mapeamento da região era apenas o objetivo secundário da expedição.  O Foreign Office havia dado ordens de explorar as Malvinas, mas o motivo principal da viagem era o estabelecimento da Sociedade da Igreja Missioneira, pelo missionário Richard Matthews, de 22 anos de idade, que durante a toda a viagem de volta continuou doutrinando os índios na intenção de permanecer com eles aqui na América do Sul. O reencontro dos 3 fueguinos com suas famílias foi repleto de medo, estranheza, frieza e até rejeição. Dizem os historiadores que a mãe de Jemmy sequer lhe dirigiu a palavra, quando o viu vestido e agindo como um caraíba virou as costas e foi embora.  Chegando em Wulaia descobriu-se que Jemmy havia esquecido sua língua natal, e os marinheiros deram risadas ao vê-lo tentando se comunicar com seu irmão metade em espanhol, metade em inglês. Quando lhe deram notícias da morte de seu pai ele também não se emocionou, porque disse já ter sido avisado disso em um sonho. Lá construíram três cabanas e uma horta, e descobriram que seu irmão era o pajé daquela tribo.  Ele foi batizado de Tommy, e quis ficar com o grupo do evangelizador, junto com outros membros da família.  Quatro dias depois alguns marinheiros foram praticar tiro ao alvo com seus mosquetes, para mostrar ao índios a potência delas, o que fez com que quase todos fugissem. Assim FitzRoy decidiu fazer um teste e partir por alguns dias, e ver como as coisas se desenrolavam. Quando voltou o missionário resolveu desistir da missão:
"Matthews deu um relato tão ruim do comportamento dos Fueginos que o capitão o aconselhou a voltar para o navio. A partir do momento da nossa partida, um sistema regular de pilhagem foi iniciada, em que não só Matthews, mas York & Jemmy também sofreram. Matthews perdeu quase todas as suas coisas; e a vigilância constante era mais um assédio & inteiramente o impediu de fazer qualquer coisa para obter alimento & noite e dia grandes grupos de nativos cercavam sua casa. - (Nota na margem: Eles tentaram cansá-lo, fazendo ruídos incessantes) Um dia, após ter solicitado a um ancião a deixar o local, ele voltou com uma grande pedra na mão: Outro dia, um grupo inteiro avançou com pedras e estacas, e alguns dos mais jovens e o irmão de Jemmy estavam chorando. Matthews pensou que queriam só roubá-lo e ele ofereceu presentes. Mas não posso deixar de pensar que tinham algo a mais reservado para ele. Eles mostraram por sinais de que iriam pelá-lo e arrancar todos os cabelos do rosto e corpo. Acho que voltamos bem à tempo de salvar a sua vida." (Diário de bordo de Charles Darwin)
Um mês antes deste acontecido, em 3 de Janeiro de 1833, o capitão John Onslow tinha usurpado de forma imperialista as Malvinas a menos de 500 km da Argentina e a mais de 12.000 km de Londres.  As defesas argentinas não estavam ainda recuperadas do último ataque americano. Luis Vernet não se encontrava nas ilhas, e portanto os ingleses aproveitaram para declarar aquilo "res nullius", terra de ninguém, como se não houvessem habitantes.  A única forma de defesa que os Argentinos possuíam era a goleta Sarandí de 8 canhões e seus 25 homens, contra o HMS Clio de 18 canhões e o HMS Thyne com 28 canhões, e ainda por cima parte da tropa argentina era de origem britânica. A legislação do Reino Unido contemplava o crime de alta traição para os nativos desse país que se levantassem contra a coroa. A maioria dos homens disseram que estavam dispostos a lutar, mas a resistência era insuficiente.  O comandante José Maria Pinedo nada pode fazer e acabou encarando uma corte marcial da marinha por quebrar o Código Militar e não ter resistido aos britânicos.  Desde então os ingleses sempre declararam em sua defesa que haviam se reinstalado nas ilhas, sendo que nunca habitaram a capital da ilha, apenas ocuparam o Porto Egmond, em uma ilhota ao lado da Malvina Ocidental, entre 1766 a 1774 até serem expulsos pelos Espanhóis. 

Darwin chegou no arquipélago e escreveu que "os atuais habitantes consistem de um inglês, que reside aqui ha alguns anos, e tem agora o mando da bandeira britânica, 20 espanhóis (argentinos) e três mulheres, duas das quais são negras."  Isto é porque grande parte da população fugiu durante os recentes ataques, aquelas que já não tinham fugido durante o ataque norte-americano.  Os únicos que não conseguiram fugir foram os gaúchos e os charrúas, proibidos principalmente por Mathew Brisbane, que era o braço-direito de Vernet, mas passou para os lados do ingleses durante a invasão, e agora era governador interino.  Brisbane havia se rendido com Pinedo, fugindo para Buenos Aires no Sarandí, e agora voltava às ilhas a bordo do Beagle. Em uma reunião com o FitzRoy, Brisbane foi incentivado a continuar o negócio de Vernet "desde que não exista nenhuma tentativa de promover as ambições das Províncias Unidas".  O capitão foi forçado a usar seus poderes de persuasão para incentivar os gaúchos a continuarem trabalhando com o estabelecimento de Vernet, uma empresa que viria a ser vital na continuidade inglesa nas ilhas:
"Durante este mês que permaneci em Berkeley Sound [Bahia da Anunciação], eu tive muitos problemas com as tripulações envolvidas na caça de baleias ou lobos-marinhos, bem como os colonos, que pareciam pensar que, por causa que a bandeira britânica fora re-hasteada nas Malvinas, eles estavam livres para fazer o que quisessem com a propriedade privada do Sr. Vernet, bem como com o gado e cavalos selvagens. Os gaúchos [e charrúas] desejavam abandonar o lugar, e voltar para a [região da] Plata, mas como eles eram os únicos trabalhadores úteis nas ilhas, de fato, as únicas pessoas de qualquer confiança que podiam ser alocados para um fornecimento regular de carne bovina fresca, me interessava tanto o quanto possível induzi-los a permanecer, e com um sucesso parcial, formalmente sete dos doze." (A Viagem do Adventure e o Beagle - Robert FitzRoy)
Poucos dias depois, sem mais instruções para cumprir, Onslow abandonou o arquipélago em direção à costa do Brasil deixando apenas uma guarnição mínima, liderados por um tenente chamado William LoweCrescia o descontentamento entre os peões gaúchos e charrúas. O capataz Jean Simon tentava alargar os trabalhos já pesados, e além disso, os nativos ainda estavam recebendo como salário uma espécie de vale subscritos pelo ex-governador (peso das Ilhas Malvinas), que não foram aceitos pelo novo chefe de armazéns, o irlandês William Dickson. Eles também foram negados o uso de cavalos, e de alimentar-se do gado, forçando-os a caçar pequenos animais silvestres. Os estrangeiros que ficaram no arquipélago queriam um rápido entendimento com o Reino Unido, ao contrastaste do fervor patriótico dos criollos. Discordando dessa nova situação, um grupo de oito charrúas e gaúchos se revoltaram em 26 de agosto de 1833, sob a liderança do entrerriano originário Antonio "El Gaucho" Rivero (apelidado de "Antook" pelos britânicos). Os guerreiros charrúas eram: Luciano Flores, Manuel Godoy, Felipe Salazar, Manuel González e Pascual Latorre


Até hoje na Argentina, o mestiço charrúa "El Gaucho" Rivero
é visto como herói nacional.

Estes rebeldes estavam armados com facões, espadas, pistolas, espingardas e boleadeiras, em contraste com pistolas e rifles com que contavam os seus adversários. Aproveitando a ausência de tenente Lowe e seus homens, que tinham ido caçar focas, no meio da manhã lançou-se uma série de ataques-surpresa. Poucas horas depois foram mortos Brisbane, Dickson, Simon, e outros dois colonos: Ventura Passos e o alemão Antonio Vehingar. Todos tinham sido homens de confiança de Vernet até o ocupação britânica. Aproveitando-se de sua superioridade numérica, os rebeldes tomaram a casa do comandante, antiga casa de Vernet, edifício principal de Puerto Soledad. Os gaúchos impediram o hasteamento da bandeira britânica nos próximos cinco meses, levantado uma bandeira argentina improvisada em seu lugar. 

Enquanto isso os viajantes do Beagle haviam passado um ano longe de seus três amigos nativos, e estavam ansiosos para ver se os "índios civilizados" haviam começado a influenciar seus colegas de tribo. O que aconteceu foi o oposto disso, Jemmy havia reintegrado totalmente com sua cultura original, o que foi visto como uma derrota para a tripulação. Esta experiência viria a impactar muito Charles Darwin e influenciou todo o seu pensamento que veio depois.  Será que o naturalista estava no Jardim do Éden e não percebeu? É o que nos parece:
"A perfeita igualdade entre os indivíduos que compõem as tribos Fueguinas, deve por um longo tempo retardar sua civilização. Como vemos os animais, cujo instinto os obriga a viver em sociedade e obedecer a um chefe, são mais susceptíveis a evoluir, e assim é também com as raças humanas. Queira olhemos como causa ou conseqüência, o mais civilizado sempre têm os governos mais artificiais. (...) Em Tierra del Fuego, até que algum chefe surja com potencial suficiente para assegurar qualquer vantagem adquirida, tais como os animais domesticados, parece quase impossível que o estado político do país possa ser melhorado. Atualmente, até mesmo um pedaço de tecido dado a um é rasgado em pedaços e distribuído; e nenhum indivíduo torna-se mais rico do que o outro. Por outro lado, é difícil entender como um chefe pode surgir até que exista propriedade de algum tipo pelo qual ele pudesse manifestar a sua superioridade e aumentar seu poder." (Viagem do Beagle - Charles Darwin)
Durante este encontro em Wulaia, as cabanas de Jemmy, York e Fuegia estavam vazias, mas sem danos. Os jardins e as hortas tinham sido pisoteadas. Não havia uma alma e o lugar parecia abandonado ha meses. De repente, avistou-se três canoas no horizonte, Tommy Button vinha em uma, e na outra Jemmy, todos nus, com um pedaço de couro em suas costas, cabelos longos e lisos, o corpo magro e olhos irritados pelo fumo. Eles subiram no barco a noite e comeram com a tripulação.  Para surpresa de todos, a esposa de Jemmy, irmãos e cônjuges, empregavam algumas palavras em inglês quando falavam com eles:
"Uma canoa, com uma pequena bandeira hasteada, foi vista se aproximando, com um dos homens dentro dela lavando a pintura do seu rosto. Este homem era o pobre Jemmy, - agora parecendo um magro selvagem mal-ajambrado, com o cabelo desordenado e longo, e nu, exceto por um pouco de pano em volta de sua cintura. Nós não o reconhecemos até que ele se aproximou, porque ele ficou envergonhado de si mesmo, e virou as costas para o navio. Nós o tínhamos deixado gordo, parrudo, limpo e bem vestido; - Eu nunca vi uma mudança tão completa e atroz. Logo, no entanto, quando ele se vestiu, e a primeira agitação passou, as coisas voltaram à boa aparência. Ele jantou com capitão Fitz Roy, e comeu seu jantar com a educação de antigamente. Ele nos disse que ele tinha comido "demais" (ou seja, o suficiente), que não sentia frio, que seus parentes eram pessoas muito boas, e que ele não queria voltar para a Inglaterra. <...> Jemmy tinha perdido todos os seus bens. Ele nos disse que York Minster construíu uma grande canoa, e com sua esposa Fuegia, vários meses atrás tinha voltado para o seu próprio país, e como ato traiçoeiro de despedida; persuadiu Jemmy e sua mãe para irem com ele, e, em seguida, no caminho abandonou-os durante a noite, roubando todos os seus pertences. 
Jemmy foi dormir em terra, e na parte da manhã retornou, e permaneceu a bordo até que o navio entrasse em curso. <...> Ele voltou carregado com bens valiosos. Toda alma a bordo estava sinceramente arrependida de apertar as mãos com ele pela última vez. <...> Quando Jemmy chegou à praia, ele acendeu um sinal de fogo, e a fumaça se entrelaçou, desejando-nos um último e longo adeus, enquanto o navio manteve o seu rumo adentrando o mar aberto"
 Pintura do HMS Beagle partindo, com Jemmy acenando adeus.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A Furiosa e os Furiosos

Saiu o resultado, não foi dessa vez. Infelizmente terei que me contentar com o segundo lugar de minha escola vermelha e branco. E também não foi dessa vez que vi uma manifestação puramente indígena, sem nenhuma tentativa forçada de representar o Brasil como um país que “sempre foi miscigenado”. Podermos ver inúmeros exemplos em que as culturas afro e européias conseguem ter seus momentos “carreira-solo”, mas quase nunca vemos os brasileiros originários tendo seu momento de glória, na Apoteose ou qualquer outro lugar. Parece que os não-índios têm medo de que quando este dia chegar, nós possamos pedir as nossas terras de volta! Kkkkkkkkkk

Independente do nome “samba” aparentemente derivar do ritmo “semba” da África, o nosso ritmo que temos hoje é proveniente do Côco, dos Xocós e dos Fulniô. Os Grêmios Recreativos, desde a “invenção” do carnaval, parecem ter sempre baseado tudo o que envolve esta parte da nossa herança, na cultura africana. Não só na sua concepção, mas até hoje dentro do samba existem muitos aspectos indígenas (instrumentos como os maracás e apitos por exemplo). Um grande reparo precisa ser feito na forma que vemos a história do samba, e precisamos reconhecer que ele surgiu no Nordeste no século XIX, ou antes, e não no Rio de Janeiro no século XX, como é aceito hoje pela maioria.


Voltando ao desfile da Salgueiro, no programa da Fátima Bernardes, o carnavalesco Milton Cunha mencionou que a “santa tem cocar”, e por causa disso aquilo representava a miscigenação do Brasil: “índio, negro e branco”. Ele está se referindo à comissão de frente da escola, composta de dançarinos fantasiados de índios Botocudos (ou Aymorés), que em um determinado momento da coreografia fazem uma roda em volta de uma índia montada em cima de outro índio.  Depois eles colocavam um tapete de LED azul em cima dos ombros dela fazendo-a parecer com a Nossa Senhora do Rosário, enquanto os índios em volta ajoelham em posição de louvor.

Embora todos nós desejemos uma convivência pacífica entre todas as raças e crenças, e respeitamos as culturas que vieram de fora do Brasil e decidiram morar aqui, eu diria que a retratação da Nossa Senhora do Rosário no meio dos Botocudos é uma ofensa, até mesmo um deboche da Ditadura Monolítica. Quando eles querem desmoralizar um povo que eles tentam conquistar, eles usam seu aparato de mídia em massa para estabelecer uma versão dos fatos não só mentirosa, mas “maquiada” para ficar mais apresentável e dócil ao paladar dos foliões, que somos nós, só que o ano inteiro.



Será que o indígena do Brasil merece tão pouca exposição na mídia? Porque não temos celebridades indígenas, ou momentos onde o índio é trazido ao centro das atenções? Se o tema são os Botocudos, esta interpretação não pedia uma exaltação “principal” à cultura deste povo? Perdoe-me os Católicos, mas o que é que aquela santa está fazendo ali? À primeira vista a iniciativa do coreógrafo Helio Bejani parecia ótima. Não faltou investimento para sua comissão de frente equipada com tapete de 11.000 lâmpadas de LED e carro alegórico em forma de Bicho da Taquara, que ao virar de cabeça para cima se tornava um ser metade índio, metade larva.

A larva é o Bicho daTaquara, que se usava para fazer ensopados, e tanto o espanhol Cabeza de Vaca em 1542, quanto o padre Anchieta e sua trupe em 1560, parecem ter gostado da iguaria, que descreveram como tendo gosto de porco. Mas essa larva também se transforma em mariposa (que era o que estava estampado no carro da Furiosa, com grafismos desenhados abaixo das asas), e era comida arrancando a sua cabeça venenosa, e engolindo o corpo com intestinos e tudo, usado como alucinógeno ou medicina para insônia. Quando tomado para usos recreativos diz-se dar sonhos maravilhosos para os índios. Mas porque nenhum comentário mais aprofundado? Porque não se deram o trabalho ao menos de mencionar que o nome “botocudo” nem sequer se refere à uma tribo ou etnia de verdade? É um apelido ofensivo dado a alguns Jês de Minas Gerais, Espírito Santo e Sul da Bahia, comparando os botoques (imató) que usavam nos lábios e nas orelhas com as rolhas dos barris de vinho português.



A referência à Nossa Senhora do Rosário está apontando para o evento de onde se iniciaria o massacre final do povo Krenak (Gutkrak) e vários outros, especialmente os que viviam na região Leste de Minas Gerais. Durante centenas de anos, enquanto as minas de ouro e diamante estavam abundantes, a Coroa Portuguesa impedia a passagem direta por aquela região, para evitar o contrabando. Os fazendeiros dali reclamavam da violência dos índios e do difícil acesso à igrejas. Em 1702 quando os bandeirantes Manoel Correia de Paiva, Gaspar Soares e Gabriel Ponce de Leon descobriram ouro nas areias do córrego Cuiabá, iniciaram uma dura luta com os índios locais por 26 anos.  Até que decidiram mudar suas táticas e mexer com o “psicológico” dos índios, remover o cocar de seus akangs e colocar uma aureola cheia de culpa, construindo uma capela para esta santa. Conforme o historiador Geraldo Dutra de Morais, o sincretismo “rolava solto” nesta festa do Rosário, celebrada anualmente com o "congado" ao som dos instrumentos africanos como pipiruis, caxambus, berimbaus, marchetes, acompanhados de danças sob os comandos do Rei Congo e a Rainha Ginga e uma corte eleita. Foi nesta mesma linha de pensamento que consequentemente o bispo do Rio de Janeiro, Frei João da Cruz, em 15 de Outubro de 1741 criou a cidade de Abre-Campo, freguesia famosa por haver “sido quatro ou cinco vezes atacada e uma literalmente arrasada a fogo pelo selvagem botocudo".

Aquilo foi o início do fim para os Jês do Rio Doce.  Em 1808 Dom João VI chegou ao Brasil, em nome de sua mãe Dona Maria I, a louca. O Príncipe Regente veio fugido da Europa com o rabo entre as pernas, e dois meses depois declarou guerra ao Botocudos.  Parece até que queriam descontar nos índios a surra que tomaram de Napoleão! Os parentes foram de protetores do Watu, à inimigos públicos número um.  O pretexto da ofensiva era: os botocudos controlam os sertões, impedem a navegação, rechaçam o povoamento e não deixam que os mineiros aproveitem as imensas riquezas do sertão do Rio Doce. Na verdade repetia-se constantemente que queriam escoar matérias-primas e alimentos pelo rio para o resto do Sudeste, mas após o final da guerra este mesmo verificou-se não navegável.  O Governador de Minas Gerais, Pedro Maria Xavier de Ataíde e Mello, foi implacável no que viria a ser um dos episódios mais sangrentos da História do nosso país.  A primeira tática, e mais óbvia, era derrubar a primeira fonte de sustento dos índios, a mata.  A segunda foi dar vida boa para malandros:
Para que o povoamento ocorresse, seriam necessários dois tipos de pessoas: os endividados, que sem meio algum de pagar as dívidas iriam atrás desse “novo Potosi”; e os vadios, criminosos, “gentalha, a mais perigosa na sociedade”, que seriam obrigados, além de povoar, cultivar aquelas terras. O povoamento seria estimulado com a isenção da taxa do dízimo e moratória aos que tinham dívidas com o Estado e com os particulares. O governo também deveria fornecer-lhes sementes e ferramentas, gratuitamente, nos primeiros anos. (Extermínio e Servidão - Haruf Salmen Espíndola, 2011)

O Governo, que antes da guerra nem sequer haviam se dado conta que os índios locais eram nômades, criou então seis divisões de infantaria (DMRD- Divisão Militar do Rio Doce).  Incitaram a rivalidades de arqui-inimigos como os Puris, Malalis e Maxacalis, que ajudariam a acabar com os Krenaks, Nakrehé, Crecmum, Pejaurum, Ituêto (Etwét), Jiporok e os Naknenuck, cuja tribo o comandante-geral fez questão de afirmar oficialmente que não era antropófoga. Este estigma não foi confirmado por nenhum militar, missionário, diretores ou viajantes a respeito de nenhuma dessas tribos. Entre 1800 e 1814 foram construídos sete quartéis no sul da Bahia, 27 no nordeste e leste de Minas (sendo vinte na região do Rio Doce) e 38 no Espírito Santo.  Geralmente as tropas se aproximavam dos aldeamentos durante a noite, para atacar os índios sonolentos e confusos pela manhã. As mulheres e crianças eram distribuídos pelos fazendeiros como mercadoria. Segundo a carta régia os fazendeiros foram autorizados a “servirem-se gratuitamente do trabalho de todos os índios que recebessem em suas fazendas, tendo somente o ônus de os sustentarem, vestirem, instruírem na nossa santa religião” pelo período de 12 anos, sendo que esse prazo poderia ser estendido para 20 anos.

Os colonizadores ironicamente batizaram este conflito de "Guerra Justa". Os números de baixas oficiais não são muito difundidos, mas segundo Augusto de Saint-Hilaire em 1818 a densidade demográfica seria de 10 índios por légua quadrada em MG e 150 no ES.  Isto gera uma cifra de 130,000 e 324,000 respectivamente. É um número altíssimo considerando que as estimativas tradicionais é de que o Brasil teria apenas entre 5-10 milhões de habitantes na época do Descobrimento. As estimativas de Guido Marliére eram bem mais acanhadas, segundo ele apenas 20,000 índios entre MG e ES estariam ameaçando a Coroa.  Já na época de Teófilo Otoni esse número já havia caído para 10,000.

Supostamente a política indígena mudou com a chegada de Marliére.  Um oportunista fugido da França que trazia sua nobre esposa e na bagagem acusações de espionagem. Foi contratado como inspetor geral de todas as Divisões Militares, para tentar pacificar os nativos.  Mas aparentemente a violência não cessou tão facilmente, segundo Teófilo Otoni chefe da Companhia da Mucuri (1858), um comandante militar, para que não houvesse dúvida de seus feitos, trouxe consigo “o asqueroso despojo de 300 orelhas, que mandou amputar dos selvagens assassinados”. Cães foram  especialmente treinados na caça aos Botocudos, alimentados inclusive com carne de indígenas assassinados.  Foi feito todo tipo de comércio ilegal, como de crianças (1 Krenak valendo uma espingarda)  e de cabeças de Botocudos mortos em combate, dezesseis delas foram vendidas a um francês que disse tê-las comprado para o museu de Paris em 1846.

Foram dadas concessões de terras igualáveis ao príncipes mais abastados da Europa. O senhorio que se dispusesse a participar da conquista por conta própria deveria aniquilar um mínimo de 1.200 índios adultos, e fundar povoados de pelo menos 100 europeus. Aos poucos foram feitas tentativas de aldear os nativos para tentar levar ao sedentarismo aqueles que ainda não haviam sido escravizados. Agora com os índios todos concentrados em um só lugar ficaria fácil a contaminação através de roupas e cobertores, infectados com doenças como o sarampo, por exemplo. Em um relato de Freireyss em 1815: “O comandante [do quartel de Santana dos Ferros] nos contou que já tinha amansado quinhentos Puris e os domiciliados em lugares determinados, fazendo-os acabar com toda hostilidade contra os portugueses e seus amigos; mas acrescentou, com uma risada diabólica, que se devia levar-lhes a varíola para acabar com eles de uma só vez, porque a varíola é a doença mais terrível para esta gente”.



Os Botocudos contavam que os adornos labiais e ouriculares eram uma indicação de seu herói-cultural, chamado Marét-Khamaknian, que vivia no céu. Sua divina esposa era chamada Marét-Jikki (a velha Jikki), mas o casal não se dava muito bem e suas brigas eram a explicação para as diferentes fases da lua. Acreditavam que através dos seus sonhos era possível visitar o mundo dos Marét, repleto de fartura e riquezas. Por intermédio desse contato, estabeleciam seguimentos de suas vidas humanas e até mesmo previsões futuras relacionadas à comunidade.

Os bravos guerreiros, pais atenciosos e  bons maridos receberiam a recompensa depois da morte, indo morar numa terra de mata virgem, abundante de frutas, caça e belos rios fartos de peixes. Os covardes e preguiçosos iriam para uma terra árida, sem matas e com rios sujos e sem peixes. Os mortos eram embalsamados com fibras de embira, com a cabeça coberta por uma carapuça e pendurados com uma faca ao pescoço por tiras. Sepultava-se o morto junto a suas ferramentas, armas e pertences pessoais, e colocavam-se canudos de mel e água como alimento no outro plano espiritual. Já as mulheres eram certas de ter seus dotes tradicionais, por isso iriam apenas panelas e água. Por isso que nos combates quando alguns dos seus caíam mortos, faziam todo esforço para reaver os cadáveres, pois somente debaixo da terra estariam seguros de Nantshone (diabo).


A ocupação definitiva do Vale do Rio Doce só acabou acontecendo no início do século XX, a partir da construção da estrada de ferro Vitória-Minas, pela atual Companhia Vale do Rio Doce.Os Botocudos sobreviventes, das guerras coloniais, tiveram então que enfrentar as conseqüências da construção da estrada de ferro, que acarretou em uma diminuição ainda maior de seu povo.  Os índios chamavam a Maria-Fumaça que percorria os trilhos de "Guapo", que significa monstro que vomita fogo. Os Krenak não aceitaram a invasão do 'Guapo" que cortava seu território e faziam expedições à noite para arrancar seus trilhos.



Diante de tanta penúria, na minha mente só resta esboçar uma reação de pensamentos positivos, quem sabe recordando da quantidade de gente que vi fantasiada de índio neste carnaval.  Não sei se eram os efeitos etílicos, ou o fato de que passei a ler muito sobre cultura indígena, mas a sensação passeando pelos blocos foi de que havia uma quantidade muito maior de gente fantasiada de índio do que em todos os carnavais passados. Não só fantasiada, mas bem fantasiada, com adereços e grafismos que indicam mais respeito à cultura, tendo um mínimo de cuidado de homenagear nossa ancestralidade, e não apenas colocar qualquer coisa, ou pintar a cara de vermelho. Deixo vocês com uma série de fotos, que quem sabe, possa inspirar melhores carnavais!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

E Agora, Quem Poderá Nos Salvar?

Se existe uma tribo em território brasileiro com vocação para produzir super-heróis com certeza são os Kayapó (Mebêngôkre). “Caiapó” na visão dos índios é uma denominação pejorativa, pois significa "homens semelhantes aos macacos", já mebêngôkre significa "homens do poço d'água". Irônicamente é justamente da água que vem a maior ameaça ao lugar de vivência desse povo, pois caso a represa de Belo Monte seja construída, grande parte de suas terras serão alagadas, e o rio Xingú, do qual provém seu sustento, será incapacitado de produzir os alimentos (dentro e fora d'água) dos quais os índios sobrevivem. Diante de toda a violência contra o nosso meio ambiente, à quem podemos recorrer nestes tempos difíceis?  Talvez os personagens Kayapós na grande mídia nos sirvam de inspiração! 




Normalmente quando pensamos em astronauta brasileiro, lembrarmos do nome de... não, não estamos falando de Marcos Pontes, e sim de Bep Kororoti, o ancestral dos Kayapó-Xicrim, documentado por João Américo Peret em 1952! Essa herança cultural deveria ser motivo de muito orgulho para todos nós brasileiros, se o fato fosse mais divulgado entre a população, pois a descoberta é anterior a chegada do homem à Lua, em 1969. Bep-Noy, o sábio ancião da aldeia Gorotire no Pará, contou à João Américo a história do povo de Pukato-ti, que em tempos imemoriais encontrou um astronauta carregando um Kop, e vinha em nome de Men-Baba, o Criador de todas as coisas. Quem sabe não chegou a hora de unirmos nossas vozes, juntos a estes falantes da língua Jê clamarmos pela volta de Bep, e pararmos as engenhocas dos caraíbas malucos? 



O crescimento desenfreado, aliado à ignorância do branco/brasileiro-que-se-acha-europeu, foi iniciada com a Marcha Para o Oeste, versão Modernista do Destino Manifesto norte-americano. Esta campanha foi criada por Getúlio Vargas com a intenção de fornecer matéria-prima e alimentos para as regiões industriais do Sul e Sudeste, também continha embutida em sua filosofia, o mesmo pensamento dos Iluministas de Coimbra, que tomavam para si o sentimento de superioridade e tinham o “dever” de civilizar esse povo nativo atrasado para o nosso próprio bem. Além disso, essa migração também ajudaria a equilibrar o país demograficamente e eliminar alguns vazios de ocupação humana no nosso mapa. Aparentemente espaços com muita floresta e animais no meio não são um bom sinal para os governos civilizados. A última intenção dessa campanha era derradeiramente a ocupação da Amazônia, portanto houve a necessidade da construção da Transamazônica e o deslocamento das 15 maiores etnias daquela região para Parque Indígena do Xingu-MT.

Voltando ao Xingú do Pará, se seguirmos a lógica alegórica de James Cameron em seu filme Avatar, a tendência é que as multinacionais queiram muito mais do que uma represa que só vai funcionar durante 4 meses do ano.  Existem matérias que alegam que o verdadeiro interesse das estatais está no que se encontra abaixo do solo da Bacia do Xingú-PA. Ali se encontram urânio, ouro, e o minério mais crucial para quem antevê uma possível guerra e vem das jazidas de volframita.  No filme foi metafóricamente chamado de “unobtainium”, mas o diretor provavelmente se referia ao tungstênio.


O Tungstênio é muito usado para fabricar jóias pelas suas qualidades como condutor de eletricidade e calor. É hipoalergênico e resistente a riscos, especialmente em desenhos com acabamento escovado. É um dos metais mais densos do planeta, e o metal com o maior ponto de fusão. Por esses e outros motivos é um elemento essencial na produção de ferramentas de corte e lâminas de perfuradoras para mineração, petróleo e construção (representa cerca de 60% do consumo atual de tungstênio); turbinas e tubeiras de foguete, munições de armas ligeiras concebidas para penetrarem proteções pessoais, artilharia, granadas e mísseis, para criar estilhaços supersônicos. Devido a esta importância em tempos de guerra, até nossos colonizadores patrícios foram colocados em maus lençóis, quando foram pressionados por ambos os lados na Segunda Guerra Mundial, que queriam o metal para fundir com o aço, o que aumenta muito a resistência deste metal quando interligados. O único problema para nós agora é que a China detém 1 800 000 toneladas em reservas deste minério, enquanto o resto do mundo detém apenas 1 milhão. Seria por isso tanta insistência para construir Belo Monte?


Quem sabe além do astronauta, também não possamos contar com outro super-herói mais recente, e que foi um dos cinco "protetores" do meio-ambiente mais importantes dos anos 90. Ma-Ti, personagem do desenho animado Capitão Planeta, é um índio Kayapó, fato que passou quase despercebido aqui no Brasil mesmo com as aventuras passando diariamente na TV Globo durante anos. Ele fazia parte de um grupo de 5 adolescentes que trabalhavam juntos para estimular um comportamento mais sustentável ao redor da Terra. Cada um foi dado por Gaia um anel que os ajudavam a evocar poderes sobre um dos elementos: Terra, Fogo, Vento, Água e Coração. O Coração era representativo do amor, comunicação, telepatia e metafísica. Eles também usavam os anéis para combinarem seus poderes e chamarem a ajuda do próprio Capitão Planeta para livrá-los do perigo e proteger a Terra de desastres ecológicos: "Pela união de seus poderes, eu sou o Capitão Planeta!".




O episódio que revela a etnia do nosso planetário é o primeiro da 4ª temporada, no qual Ma-ti conta um breve relato de quando o vilarejo de seringueiros onde morava com seus pais estava sendo ameaçado por fazendeiros. Um dia antes da destruição do vilarejo seus pais decidem deixá-lo com o pajé de uma aldeia próxima, o qual ele chama de avô. Nosso super-herói indígena era amigo dos animais e possuía como mascote um macaco-prego chamado Suchi. Nosso parente também tinha o poder de se comunicar com animais e usar seu anel para tornar uma pessoa mais "bondosa".

O desenho foi ao ar em 1990, influenciado provavelmente pela campanha internacional de nada mais nada menos que Raoni e Sting. Em 1988, após um show em São Paulo, eles começaram uma turnê por 17 países contra a barragem de Kararaô, e por coincidência ou não, Ted Turner, o criador da série, parece ter criado uma consciência ecológica dois anos depois. A empreitada foi um sucesso. Graças à Raoni Kayapó (Ropni Metyktire), Sting criou a Rainforest Foundation, e juntos conseguiram a homologação do Parque Nacional do Xingu em 1993, foram mais de 180 000 quilômetros quadrados para 28 povos diferentes. Em 1973 Raoni já havia participado de filmagens com o cineasta Jean Pierre Dutilleux, e esses rolos viraram um filme em 1977. O longa-metragem foi um fenômeno de bilheteria e chegou a concorrer a Palma de Ouro em Cannes e os Oscars, e fez do cacique o indígena mais famoso do país. Foi Dutilleux quem apresentou Sting a Raoni, no I Encontro de Povos Indigenas do Xingu em 1987.


Não pense que os "capetalistas" não tiveram seu momento de vingança, justamente nas duas semanas nas quais ocorrereu a Cúpula da Terra em 1992, o sobrinho de Raoni, Bepkoroti Kayapó (Paulinho Payakan), foi covardemente acusado de estupro. Naquela época essa tática globalista pegou nosso parente em cheio, tendo sua foto estampada na capa da revista Veja com a manchete "O Selvagem". Hoje em dia já sabemos da "cisma" que as feministas tem com esses casos, e que as leis de prevenção desse crime relativamente raro tem se tornado cada vez mais ridículas.  Também já sabemos que houve uma tentativa proposital de denegrir a imagem do índio perante a sociedade, sendo que a única fonte de informação que o grande público tinha desses povos eram os meios de comunicação em massa. As acusações foram baseadas na construção de consensos em torno à situação privilegiada de Payakã, dos Kayapó e das populações indígenas no Brasil, no que se refere à riqueza, à terra e à situação jurídica. Esse quadro de privilégio foi apresentado de forma pejorativa na sua caracterização, exagerando seus lucros com a exploração dos recursos naturais de suas reservas, assim como desmerecendo nosso modo de vida originário e ancestral.

Raoni foi um principal interlocutor na criação do programa de Formação de Professores Indígenas, curso que existe desde 1989 na Aldeia Piaraçu. Participou também na criação da primeira Universidade Indígena do Brasil, e sempre lutou pelo direito à professores bilíngues que ensinem tanto a cultura indígena como as matérias acadêmicas dentro das aldeias. Depois de algum tempo sumida, finalmente a antiga barragem voltou com um novo nome em 2009. Como já havia sido profetizado pelo seu pai, relato que pode ser visto na abertura do filme "Belo Monte - Anúncio de Uma Guerra", o mourubixaba foi novamente convocado para a linha de frente. O melhor de Raoni é que ele parece não se iludir com falsas promessas. Parece que mesmo durante a visita do príncipe Charles ao Rio de Janeiro, ele fez questão de manter-se firme e falar abertamente, não se deixando ludibriar pelo fato de que era o convidado número um do corpo diplomático britânico: "É como sempre muito importante encontrar o príncipe Charles justamente para ajudar a preservar as florestas. Ele falou da preocupação dele com o nosso povo Caiapó e eu comentei que também que me preocupo principalmente com a construção da barragem de Belo Monte, no Pará, que pode comprometer o meio ambiente e a nossa terra".

O contato dos Kayapó com os brancos começou nos anos 50, com os Villas Boas. Logo depois veio Peret enviado pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) no edifício da atual Aldeia Maracanã, lugar de importância histórica para nós. Parece que os desastres acontecem, e nós já ficamos apáticos.  Perdemos a capacidade de tomar atitudes pelos nossos direitos. Não bastam apenas super heróis ou celecelebridades, como Raoni ou Giselle Bundchen, que repassa parte da renda das sandálias Ipanema Grandene para o programa do Instituto Socioambiental Y Ikatu Xingú. Podemos nos inspirar em ativistas indígenas fictícios como Ma-ti, ou da vida real como o Professor Urutau, que fazem a parte deles, nós também temos que fazer a nossa. O Movimento de Rexistencia da Aldeia Maracanã continua lutando pela criação da Universidade Cayuré Imana no Rio de Janeiro. As aulas de Tupi continuam todas as semanas na UERJ e na Cinelândia. E você, de que forma você poderá salvar o planeta? "O poder é de vocês!"

sábado, 20 de dezembro de 2014

Planalto de Esgoto Central (PEC) 215

Creio que todos os que acompanharam e participaram do processo que mobilizou a comunidade brasileira nas últimas semanas, ficaram surpresos com o resultado positivo. A maioria com certeza dirá que é cedo para comemorações, mas da forma como o governo PT vem conduzindo a questão indígena nos últimos anos, para mim foi mais do que um suspiro de alívio. Foi um grito de vitória!



Brasília foi invadida mais uma vez por indígenas, inclusive integrantes do Movimendo de Rexistência da Aldeia Maracanã, que estiveram presente como sempre. Foi bonito de se ver, o povo se manifestou com bravura, contra políticos tão ratazanas que tentaram até sorrateiramente votar a PEC quarta-feira na calada da noite! Como criancinhas mimadinhas. 



Todo o protesto é claro se resumia a conflito de terras. A PEC basicamente transferia do Executivo (no caso a FUNAI), para o Legislativo, a responsabilidade de demarcar terras. Processo que supostamente já havia sido interrompido no governo Dilma.  Caso o Legislativo passasse a controlar a demarcação de terras indígenas, todas as lideranças indígenas passariam a significar nada. Todos os agentes indígenas que fazem a ponte entre as aldeias e a o governo desapareceriam. As reservas indígenas passariam a ter o mesmo status de uma área de preservação ecológica. Na prática teriam o mesmo respeito que um latifundiário tem por um aterro sanitário.

Nesse contexto se juntou a voz do povo contra a nomeação também da Katia Abreu para o Ministério da Agricultura. Katia Abreu é Presidente do CNA, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, órgão que está sobre investigação do MPF no estado do Mato Grosso. A tendência é de que esta senadora piore ainda mais a situação da demarcação de terras, que já se utilizam de uma má interpretação da constituição.

O fato é de que o discurso do governo tende a ser, segundo as próprias palavras da senadora de que: "Se em 88 tinha índio [na área], [a área] é de índio e não vamos discutir. Mas se em 88 não tinha índio [na área], [a área] é de não índio". O que ela quer dizer com isso é que, se no momento da escritura da Constituição de 88 habitavam índios em uma determinada área ou não, é o fator determinante de se aquela é área indígena ou não. O que é um verdadeiro absurdo por três motivos, o primeiro é óbvio, de que sabemos que logo antes desta data muitos e muitos índios foram expulsos de suas terras justamente com o objetivo de se aproveitar dessa “Lei”, que eles já sabiam que iria vir. Segundo é de que diversos estudos das melhores universidades dos país estão aí pra comprovar que a ancestralidade de diversas áreas são muito maiores, históricas, e tradicionais do que é concedido aos povos do Brasil hoje. E terceiro que, porque índios não tem o direito de adquirir mais terras ao longo do tempo, já que sabemos que a maioria das reservas são ínfimos pedaços de terra? E porque povos indígenas não tem o direito de procriar e crescer com os anos? Gerando assim uma necessidade de áreas maiores para se viver.




Por enquanto vencemos uma batalha. Mas vamos nos preparar para 2015, quando os ruralistas virão certamente armados com mais parlamentares e mais um novo relatório e uma nova Comissão Especial, e o que é pior, com novas propostas maquiavélicas. Não existem terras à venda!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A Globalização Desculturaliza o Mundo

Foi assim que falou um dos entrevistados de “Por Que Quebró McDonald's em Bolivia?”, um documentário que explica como este país chegou a ser o único na América Latina a não possuir um restaurante desta cadeia de fast-food. O motivo principal defendido pelo filme é que o estilo de vida dos bolivianos é voltado para um ritmo mais lento e harmonioso, portanto a forma de cozinhar deste povo não combina com “comida rápida”, e prazeres instantâneos. Segundo este documentário o Brasil tem 480 restaurantes McDonald's, e sei lá quantos Bob's (como se o Ronald não fosse suficiente), e os resultados já podem ser vistos nos corpos do nosso país, tão acostumados com os esbeltos contornos dos povos originários.

Outro exemplo de desculturalização é a invasão de pastores evangélicos nas aldeias, que chegam a ficar décadas tentando traduzir a Bíblia para a língua nativa, gerando uma separação das gerações mais jovens com as tradições milenares. As nossas tradições brasileiras já são repletas de mistérios e de difícil acesso até para os próprios indígenas, uma pessoa tem que passar por várias "baterias" de ritos de passagem, para ter a honra de ser aprendiz de pajé. Instituições Católicas e Protestantes chegam, mascarados de benefícios sociais e de saúde, com a ideia de que “vocês só tiveram remédios e comida depois de aceitarem Jesus”, reeditando o roteiro já manjado dos Jesuítas, já que é impossível ter memória de algo que não está escrito na História. Mas por outro lado já é hora do povo acordar, já vivemos em um mundo com livre acesso à internet, a filmes como “O Segredo - A Lei da Atração” e técnicas como o PNL.



Espero que os indígenas utilizem a Bíblia não só no nível superficial, religioso, e até negativo. Gerando culpas de ser o que são. Tendo preconceito da sua própria cultura. Essa manipulação mental é horrível, nojenta, e “jogo sujo” dos Globalistas. Tomara que os parentes comecem (rápido!) a se ligarem no conteúdo mais profundo e esotérico da Palavra, que só pode ser compreendido após a análise de uma Bíblia Transliterada. Esse estudo sim, pode vir a acrescentar ao invés de diminuir, pode vir a ser uma informação de sabedoria universal, que ajudará a compreender a nossa própria mitologia. Está na hora de começarmos a ver com outros olhos nossos próprios mitos, e a renovarmos o interesse do povo em suas crenças, que também são cheias de profundos conhecimentos.


Muitos indígenas sofrem até com o reconhecimento do nome. Vergonhosamente tivemos que esperar até o dia 1º de Abril de 2014 para que se pudessem incluir nomes indígenas nas identidades. Até os deputados nos darem a graça da permissão de usarmos nossos próprios nomes, nós índios éramos obrigados a ter dois nomes, como José, Pedro, etc apenas para colocar na carteira, e um oficial dado pelo pajé para a convivência normal na Tekohaw, como Rudá, Potira, etc. Mas mesmo assim, isso é só uma “meia correção”, de um direito que foi retirado de todas as etnias Tupi-Guarani de forma fascista, com o intuito de facilitar a manipulação mental do povo. Ainda assim eles não são bobos, digo correção pela metade porque apenas dois estados autorizam a inclusão do Povo/Etnia no RG, sendo que este seria o equivalente ao “sobrenome” do índio, mas que tem uma relevância muito mais séria, é claro.

Esse ataque descarado continuou até o Facebook. Usuários que se identificaram com a causa Guarani-Kaiowá foram obrigados a retirar o nome da etnia do "sobrenome" de seu perfil. Aquilo foi uma forma de tentar coibir estas manifestações pacíficas contra o despejo dos indígenas da fazenda Cambará, na cidade de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul. Indíos Norte-Americanos também foram bloqueados desta rede social por usar seus nomes originais. Alguns índios tiveram seus nomes mudados inclusive automaticamente, e só tiveram permissão de usar o nome real após ameaçarem entrar na justiça:
"Eles não tiveram nenhum problema em mudar meu nome para o de um homem branco, mas perseguiram a mim e outros, forçando-nos a provar nossa identidade enquanto outras pessoas mantinham os nomes delas. Nosso povo precisa saber que eles podem lutar de volta. Se mais pessoas reclamarem, eles vão mudar”, disse Brown Eyes.